Esta é uma noite sombria para mim, não tenho mais lar, quando o sol surgir no horizonte terei de deixa tudo para traz, esquecer quem eu fui um dia, esquecer todos que eu amei, todos aqueles a quem eu ingenuamente dediquei meu coração. A dor e o ódio consomem minha alma nessa noite solitária, as pessoas que acreditava que me amassem hoje me odeiam e me temem, não há mais lugar para mim em seus corações, me odeiam simplesmente por eu ser eu mesma. Tolos!
Pela manhã eu era uma filha adorada de uma família perfeita, agora sou maldita, indesejada, proscrita. Em quanto eu fui a filha perfeita eles me amaram, eu era exatamente o que eles queriam que eu fosse, mas eu tinha meus próprios desejos, coisas que eu amava e eles não aprovariam, então escondi em um recanto escuro do meu coração para não decepciona-los. Porem eu sabia, um dia viria a tona, um dia todos saberiam quem eu sou. Eu tinha esperança, uma vã esperança de que se um dia descobrissem o amor que sentiam por mim seria maior do que a desaprovação, infelizmente eu estava enganada.
Fui expulsa de casa por meu próprio pai, ele disse que não tem mais filha, não o reconheço mais, minha mãe ficou calada, chocada demais para dizer qualquer palavra fosse de acusação fosse de defesa, me deram uma noite, ao menos não me jogaram na estrada nesse escuro e no frio.
Quem eu sou agora não sei mais, amanhã será um novo dia, uma nova oportunidade de ser feliz, um dia para enfrentar meus medos, um dia para me aventurar em um mundo desconhecido e talvez perigoso, mas incrivelmente não tenho medo, amanha também serra para mim o dia em que finalmente abrirei minhas asas e voarei livre sendo quem eu sou de verdade, sem mascaras, fazendo o que meu coração manda. Sendo o que fez meus pais me odiarem. Sendo quem eu sou. Sendo uma feiticeira.
O dia amanheceu triste e enevoado, não dormi, quando o sol nos saudou com o seu brilho e calor eu já estava distante, não me despedi, não havia de quem se despedir, agora o passado não importa mais, ainda dói muito, a saudade aperta, tudo que eu queria era um abraço da minha mãe.
Caminho sem rumo agora, ainda não sei para onde ir, preciso comer, mas a tristeza me impede de sentir fome. Caminho por uma estrada que não sei para onde leva, de um lado vejo um pasto verdejante, bem distante alguns cavalos correm, do meu outro lado um bosque meio mágico, a estrada se afasta um pouco dele como se o temesse, lá dentro os animais correm livres protegidos pelos espíritos da natureza, por vezes posso ouvir o sussurrar das arvores como se me chamassem. Vou sair da estrada e caminhar pela borda do bosque, quero me afastar dos homens agora, eles são cruéis e sem paixão, melhor me aproximar do bosque e conversar com as arvores, elas me entenderam melhor.
Quando a tarde começo a se tornar noite eu sai da estrada na direção do bosque, caminhei ainda um pouco para dentro do território das arvores ate encontrar um lugar para passar a noite. Dormi entre as raízes de uma arvore enorme e muito antiga, foi como passar a noite nos braços de uma avó que me ama muito, ela me deu muito carinho. Despertei um pouco dolorida, não estou acostumada ao abraço das raízes, porem muito mais tranqüila e com a certeza de que esse bosque me acolherá enquanto eu não souber para onde ir. Sinto-me livre e ate um pouco selvagem, posso ouvir cada vez mais nitidamente o sussurrar das arvores, tenho certeza que querem me dizer algo, mas ainda não consigo compreender. Continuo a caminhar sem rumo, mas agora cada vez mais para dentro do bosque, eu sinto que aqui existem muito mais coisas vivas alem dos animais que eu posso ver ou ouvir, esse lugar é mágico, mas não o compreendo bem, quero aprender a ouvi-lo, sei que ele tem muito a me ensinar.
Mais uma noite se passou e o bosque me ensinou que para quem não sabe aonde esta indo eu estou com muita pressa. Devo acalmar meus pés apressados e parar para ouvir, dedicar-me mais aos meus sentidos, todos eles. As arvores me darão o necessário para que eu sobreviva, não é necessário correr ou se preocupar. Sentei-me em um galho alto para observar o bosque, essa tarde eu vi o mais maravilhoso dos espetáculos, o balançar das arvores, o sussurrar do vento, o canto dos pássaros, o som dos animais lá em baixo, o sol que entra por entre as copas das arvores, tudo no bosque esta vivo, ate mesmo as pedras.
Ao entardecer a dor voltou a me torturar, lembro-me dos meus pais, de como eles diziam que me amavam e de como me abandonaram tão friamente.
Nasci feiticeira, desde pequenina eu sempre fui diferente, entendia o que os animais sentiam, eu sentia a dor das pessoas como se fossem as minhas próprias, podia ouvir seus corações gemendo mesmo que em seus rostos houvesse um sorriso. Eu sabia quando uma pessoa tinha más intenções, passava horas entre arvores ou observando a Lua. Tudo isso era estranho para as outras crianças, algumas não gostavam de mim. Eu fui crescendo e procurando entender porque era tão diferente, conversava com meu próprio coração, lhe pedia conselhos. Procurava em livros antigos, pessoas que se sentissem estranhos em suas próprias casas como eu, então aos poucos comecei a achar explicações, juntar peças dessa complicada charada. Descobri minha ligação com a natureza, com o Sol e com a Lua, descobri que havia magia em tudo na vida, e usava o pouco que sabia para abençoar nossa comida e nosso trabalho, sempre quis o melhor para minha família e fazia tudo para que tivéssemos isso. Irônico é que eu não sabia nada a respeito de magia se comparada aos outros sobre os quais eu li nos livros antigo, mas mesmo sabendo tão pouco ainda assim fui rejeitada.
Odeio tanto a minha vida, como puderam me fazer isso, eu sempre fui tão prestativa, quantas vezes abri mão de fazer algo que eu gostava pra ajudar minha mãe. Quantas vezes eu escondi o que eu amava pra não magoa-los. Dias inteiros jogados fora, na verdade joguei fora minha vida inteira ate aqui, nunca fiz nada que eu gostasse se eles não aprovasses, nenhum amigo, nenhum pensamento que eles não aprovassem. Então, depois de uma vida infeliz como prisioneira de mim mesma, eu finalmente encontrei algo que eu amava, e amava tanto que era mais forte do que eu, mais forte do quem minha vontade de agrada-los, mas eles não aprovariam, tive o bom censo de não contar, guardei dentro de mim, escondi com todo o cuidado, mas não era suficiente, eu deveria abandonar meu destino e abraçar o destino que eles escolheram para mim, isso eu não podia mais fazer! Eu já fiz isso a vida inteira! Agora não posso mais, a ignorância não é mais uma benção, eu nunca me perdoaria era eu ou eles.
A floresta esta estranha. Começou a ventar muito, eu nem havia notado tão perdida que estava em meus pensamentos. O ódio transbordava em meu coração, o vento forte não para, vem trazendo nuvens escuras e faz muito frio, essa será uma noite muito fria, preciso de um lugar para me abrigar.
O vento esta mais violento do que eu estava acostumada na vila, ele sopra gelado como se perfurasse minha pele com pequenas agulhas. Todos os animais desapareceram assustados com o frio e a violência do vento. Os galhos das arvores que balançam violentamente batem nos meus braços e no meu rosto ferindo minha pele e rasgando minhas roupas. O cinzento ameaçador do céu parece querer me esmagar contra a terra, e os trovões tornam mais forte a sensação de que o céu ira desabar, é assustador e fascinante toda essa fúria da natureza. Mas sinto uma dor terrível, e não vem dos ferimentos, vem do meu peito. Isso tudo começou quando eu pensava no meu passado
O dia amanheceu chuvoso eu senti muito frio essa noite, a tempestade que eu causei foi muito forte, choveu durante toda a noite e todo o dia, agora já é noite novamente e já se pode ver as estrelas no céu negro; demorei muito para encontrar um abrigo, apenas após o meio do dia encontrei abrigo dentro de uma arvore, ela é tão grande que esse reentrância nas raízes mais parece uma caverna. Passei toda à tarde aqui, ela me protegeu da chuva e do frio, sinto-me tão segura.
Adormeci entre as raízes quentes dessa arvore, agora já é madrugada, as estrelas parecem mais brilhantes, a noite esta mais viva e cheia de cores do que jamais vi. Minha visão esta alterada, as cores, o céu, as arvores, tudo esta diferente; vejo vultos coloridos e brilhantes correndo pelo bosque, mas não consigo identificar o que são.
São muitos, eles correm como a brisa do mar que beija nosso rosto à noite. Eles cantam, falam e riem mas não posso vê-los. Sei que estão por toda parte e às vezes vejo seus vultos passando atrás de mim, ao lado, onde eu não estava olhando, mas quando me viro não há nada lá. Eles brincam a noite sob o manto das estrelas nas brumas que sobem do rio, na chuva que banha a terra, no vento que beija meu rosto, nos lugares onde os homens não podem mais chegar, nos lugares nos quais só acreditamos quando somos crianças.
A noite passou, o dia avançava iluminado, ainda cheio da magia da noite, o vento soprava fraco balançando a folhas das arvores que pareciam dançar de felicidade. Sob o céu azul da tarde úmida e abafada, entre o sonho e a realidade, deitada entre as raízes daquela mesma arvore eu pude ver o ser mais incrível que eu jamais poderia imaginar mesmo em meus sonhos.
Leve como o vento, iluminada como a lua, ela se movia como as águas de um riacho ou as copas das arvores ao vento; vestida de um tecido tão leve como se feito de teia, semelhante as folhas das arvores; sua voz era como um sussurrar suave, doce como um sino dos ventos.
Ela falava da noite e do dia, do passado e do futuro, da luz e da escuridão. Ao mesmo tempo ela falava de tudo, ela contava sua historia, era muito velha e muito nova, ela não tinha idéia de tempo, para ela o tempo não existe, apenas o oscilar suave das vidas humanas, tão curtas e tão longas.
Ela me contou sobre o que eu estava aprendendo, o que eu deveria aprender aonde, e onde procurar. Ela era uma dríade, o espírito daquela arvore onde eu estava. Ele me contou sobre os outros que eu vira na noite anterior o quem eram, o que faziam. Ela me mostrou a floresta, e para onde eu deveria ir antes de ir embora.
Então ela desapareceu sem dizer seu nome, eu adormeci completamente, acordei ao entardecer sem saber dizer ao certo o que fora sonho e o que fora realidade.
A noite foi fria, depois de um dia quente. As estrelas brilhantes no céu são como um mapa agora para mim, minha visão do mundo esta mudando muito rápido, estas experiências inexplicáveis estão me fazendo crescer. Sou como a flor do campo que não se preocupa com o futuro, sinto-me tão velha quanto as arvores e tão jovem como um broto.
Sigo agora na direção de um largo rio que eu vi quando a dríade me falava; lá encontrarei mais respostas às perguntas que jamais ousei fazer. Enquanto caminho sob a luz da lua, ainda vendo o mundo como na noite de ontem, sinto que seres como aquele que me falou me acompanham; eu sigo as estrelas, não sei ao certo para onde estou indo, mas tento seguir minha intuição.
É tudo tão incrível que beira o inacreditável, será que estou sonhando, ou delirando. Não. Não creio que sejam sonhos, os delírios devem ser diferentes, talvez. É possível que aja algo de delírio nisso tudo, mas talvez, apensas talvez tenhamos que beirar a loucura para encontrarmos a nos mesmos. E tudo que eu quero em meio a todas essas descobertas, é saber quem eu sou.
A minha frente vejo uma forte correnteza, um rio impetuoso, cheio de vida. Venta muito a margem do rio e sol brilha forte. As arvores parecem se inclinar para beijar a margem. Já é dia alto, o pássaros cantam mas os sons da floresta são abafados pelo murmurar da correnteza.
Eu imaginava que aquelas visões que eu tive a noite eram restritas a momentos mais mágicos como a luz das estrelas. Engano meu, ainda vejo os vultos e luzes, tudo fica cada vez mais claro, não sou apenas eu que quero vê-los, eles também querem ser vistos.
Não entendo ainda qual o propósito disso mas percebo que sou uma peça de um quebra-cabeça bem maior, o que quer que queiram me mostrar não mostrariam a qualquer outra pessoa. Mas não entendo, de tão envolvida em meus sentimentos não posso ver. Sou uma proscrita perdida em uma floresta encantada, porque tudo isso apareceria para mim?
A noite chegou e se foi novamente a beira do rio ouvindo o murmurar das águas. Ao amanhecer eu estava desperta, vi o Sol se levantar majestoso sobre a copa das arvores. A floresta inteira cantava saldando o astro rei, e os seres brilhantes que eu via dançavam e cantavam canções ininteligíveis.
A beira do rio lindas donzelas, como se pareciam, dançavam em ciranda sob as pedras da margem. Eram tão belas e incríveis, com seus vestidos esvoaçantes, brilhantes com as cores do arco-íris; cabelos longos, corpo esguio e movimentos leves; por vezes elas pareciam voar pois seus pés mau tocavam o chão. O que eram eu não sei ao certo, mas não só me deixaram vê-las como também se aproximaram de mim. Não falaram uma palavra se quer mas o sentimento que me transmitiram foi indescritível. Desapareceram ao meio dia deixando antes de partir uma guirlanda de flores aos meus pés.
Quando as meninas de vento se foram passei a usar a guirlanda o tempo todo, creio que foi um presente, algo para mostrar aos outros seres da floresta que elas permitiram que eu as visse.
Uma noite se passou e mais um dia, sem que nada mudasse, na verdade ainda os vejo, mas só os vultos, nenhum apareceu para mim novamente já a alguns dias, não sei exatamente quanto pois perdi parte da minha noção de passado e futuro com o convívio com as arvores.
A floresta fala comigo, ela me mostra onde encontrar comida, abrigo para o frio e ate me protege de animais mais agressivos. Logo, creio eu, nem será necessária proteção, com o tempo minha interação com a floresta será tão grande que farei parte dela.
As flores da minha guirlanda não murcharam como que vindas de um reino encantado.
As noites se transformam em dias, os dias se juntam em semanas e estas em meses. Já não sei quanto tempo estou aqui. As arvores me acolheram, os animais me amaram. Mas essa noite foi diferente, novamente a beira do rio eu olhava a Lua em suas águas, em um trecho mais largo e mais calmo. Via as pedras no meio do rio brilhando sob o manto estrelado. Já a Lua estava alta, e a noite já era silencio e solidão, sem vultos ou luzes, quando uma doce melodia começou a ressoar nas margens do rio, uma figura sentada nas pedras do rio cantava com uma voz doce como o murmurar das águas. Era um jovem de cabelos longos e negros, brilhantes olhos e beleza incomparável. Ele se veio em minha direção como a andar sobre a água, sua voz era suave e hipnótica, e ele me disse que meu lugar não era a floresta, que eu seria sempre bem-vinda entre o povo dele pois eu os entendia e acreditava neles, mas sou humana e deveria viver entre humanos. Disse-me também que sempre que eu precisasse de ajuda eu deveria encontrar uma arvore antiga, um rio ou uma montanha alta onde ventasse muito e eu seria ajudada pelos povos que eu conheci ali na floresta. Mas que era imperativo que eu saísse dali o mais rápido possível. Antes de desaparecer ele ainda me disse que ainda havia um dos povos da natureza que eu ainda não conhecia e que ele preferia que eu o conhecesse na segurança do mundo humano, pois ali ele ainda era muito selvagem naquele lugar. E desapareceu entre as águas.
Tomei o caminho para fora da floresta na manha de hoje, não sei porque mas confio muito Neles para não ouvir o que um Deles me fala.
Já conheço tudo o que há para saber sobre viver em uma floresta, conheço plantas que curam doenças humanas, frutas que podem ser comidas e outras que não podem. Mas não sei viver entre homens, o que farei a partir de agora? Como viverei entre aqueles que tanto me odeiam? Fui rejeitada, expulsa de casa, não me querem lá. Agora tenho que sair daqui. Mas não sei para onde irei. Tomarei outro caminho que não o que eu vim, seguirei olhando para frente e nunca para traz, mas sem jamais esquecer o que aprendi aqui e os amigos que fiz. Estou marcada, se qualquer um Deles me ver, mesmo os que não são dessa floresta, saberão que eu sou sua amiga e não tenho o que temer. Apenas os homens.
Depois de uma longa caminhada dentro da floresta eu encontrei a estrada novamente, não a que eu seguia quando entrei aqui, mas outra que não sei onde me levará. A noite aqui é triste, já sai da floresta e me sinto distante de mim mesma nesse mundo dos homens. Sinto que Eles me acompanham, mas não os vejo agora.
O chão de terra batida, a marca das rodas das carruagens e cascos dos cavalos, tudo isso parece uma lembrança distante que vem a tona, parece que muitos anos já se passaram e nada mudou, a noite ainda é triste.
Porem minha dor não é tanta, a saudade é uma dor doce. A aurora é um reconforto, um momento mágico em meio a tanta loucura e descrença. Tenho sorte de tê-lo conhecido, muitos nem sabem de Sua existência. E eu vivi entre Eles por um tempo incontável.
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Continua...